O Rio Xingu corre majestoso no centro do país e concentra em sua bacia as grandes questões relacionadas à ocupação e ao desenvolvimento da Amazônia: a usina de Belo Monte; as terras indígenas e as ameaças às florestas
Texto: Natália Martino
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O coração do Brasil
Esse enorme rio, bem no centro do país, nasce próximo à Serra do Roncador, no cerrado do Mato Grosso, e corre majestoso, cortando o Brasil em direção ao norte, por mais de 2 mil quilômetros. Vai se encontrar com o rio Amazonas, no Pará, ao sul da ilha de Gurupá, já próximo ao oceano. Tudo que o cerca tem proporções amazônicas – o rio Xingu é um dos maiores afluentes do rio Amazonas. A bacia hidrográfica que se forma em seu trajeto abriga 35 municípios e é secularmente habitada por povos indígenas – hoje reduzidos a dez mil índios de 20 etnias diferentes, que fazem do rio a base de suas atividades econômicas. A primeira terra indígena do Brasil foi demarcada às suas margens, em 1961, o Parque Indígena do Xingu. A bacia concentra, ainda, cerca de 450 mil não índios e é nas nascentes ou cabeceiras do Xingu que se encontra um dos maiores polos agropecuários do país, no leste mato-grossense.
Ao longo de sua trajetória, o rio Xingu atravessa uma região em que se acumulam todas as principais questões que acometem a Amazônia, como a extração de madeira e o desmatamento, a exploração agropecuária, os direitos dos povos indígenas e as implicações socioambientais do modelo de desenvolvimento empregado na região, representado nesse momento pela iminente construção da polêmica Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Desmatamento e preservação
Somente na região da cabeceira do rio Xingu, no Estado do Mato Grosso, há uma área de cerrado desmatada que soma 300 mil hectares, o que seria correspondente a duas cidades de São Paulo, de acordo com o ISA. E, muito além dos números, há a percepção dos habitantes da região. O que Pukuruk Kaybi, da aldeia Tuiarare, sabe com certeza é que o rio Xingu está, hoje, bem abaixo do nível que atingia antigamente, provocando escassez na caça e na pesca. Um efeito atribuído ao desmatamento em suas margens e nas de seus afluentes, principalmente nas cabeceiras.
Desenvolvimento e compensações
O ícone dos conflitos que assolam a região da bacia do rio Xingu na atualidade é o projeto da hidrelétrica de Belo Monte. Prevista para ser implantada no Médio Xingu, o empreendimento tem capacidade de gerar, segundo os estudos da Eletronorte, 11 mil megawatts de energia, o que faria dela a segunda maior hidrelétrica do Brasil. Entretanto, essa capacidade só poderá ser utilizada durante os períodos de cheia – entre os meses de fevereiro e abril. No resto do ano, a vazão do rio apenas permitirá a geração de cerca quatro mil megawatts. Segundo o planejamento da Eletronorte, a usina deverá utilizar toda a capacidade instalada durante a cheia e possibilitar, assim, que outras hidrelétricas mantenham seus reservatórios cheios. Assim, quando a época de seca não permitir o uso da capacidade total de Belo Monte, a produção energética seria compensada pelas outras usinas, com reservatórios mais cheios.
Terra: um problema antigo
A questão fundiária é uma das mais delicadas – e antigas – da bacia do rio Xingu, a exemplo do que acontece em toda a Amazônia. Em 1997 foram registrados, em toda a região, 156 casos de graves conflitos envolvendo disputa de terra e, em 2006, mais que o dobro: 328. A situação é pior no Estado do Pará. De acordo com estudo do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), os dez municípios com maior índice de desmatamento em 2004, entre os quais os paraenses São Félix do Xingu e Altamira, foram o cenário para 45% dos assassinatos rurais provocados por esses conflitos.
A questão é antiga: o desenvolvimento promovido pelo governo militar, sob a égide de “integrar para não entregar”, provocou movimentos contínuos de migração de trabalhadores à procura dos empregos criados com as grandes obras. Um exemplo é a Transamazônica, ou BR-230, rodovia que deveria ligar os oceanos Atlântico e Pacífico, planejada para ter 8 mil quilômetros e paralisada nos 4 mil. Mesmo assim, entre 1970 – quando a estrada começou a ser construída – e 1980, a população de Altamira (PA), local onde a obra teve início, aumentou de 15 mil para 47 mil. Essas e outras obras gigantescas, como a Usina de Tucuruí, de fato fizeram com que a população da Amazônia aumentasse em proporção semelhante ao crescimento dos problemas ligados à terra.
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O coração do Brasil
Fonte: Revista Horizonte Geográfico
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